Toda quadra tem uma pessoa que quase ninguém percebe.
Ele chega antes dos atletas. Carrega bolas, cones, coletes e uma rede que já deveria ter sido aposentada com menções honrosas. Depois confere o chão, improvisa uma marcação,
manda mensagem para quem faltou e espera mais alguns minutos pelo aluno cujo ônibus atrasou.
Quando o treino termina, ele fica mais um pouco. Guarda o material, conversa com os pais,
organiza a competição do fim de semana e tenta descobrir de onde sairá o dinheiro para a inscrição, o uniforme ou o transporte.
Nós o chamamos de treinador, mas, em muitos lugares, seria mais correto chamá-lo de teimoso.
É preciso certa teimosia para continuar formando atletas sem estrutura, sem segurança, sem dinheiro, e sem reconhecimento. O treinador brasileiro se acostumou a fazer muito com pouco. Às vezes, com quase nada.
Quando um atleta vence, todos se lembram do pódio. Poucos se lembram de quem abriu o ginásio numa terça-feira chuvosa, quando ainda não havia torcida ou medalhas.
Eu conheço, por experiência própria, a importância de uma política pública de incentivo ao esporte. Aos 15 anos, quando velejava no Lago Paranoá, fui beneficiário do Bolsa Atleta. O
valor recebido não me transformou em campeão olímpico, mas ajudou a manter vivo um projeto que exigia treino, disciplina, equipamentos, deslocamento.
Para um jovem, esse apoio representa que alguém acredita que vale a pena continuar.
O problema é que nenhum atleta continua sozinho.
Por trás de cada menino que aprende a nadar, de cada menina que entra numa pista de atletismo, existe alguém que ensina, corrige, cobra, incentiva e puxa a orelha.
Foi pensando nisso que conheci uma iniciativa de Osasco, o Bolsa Técnico. É um programa que oferece apoio financeiro a profissionais que dedicam sua rotina à formação e ao
desenvolvimento de atletas.
A ideia é simples. E talvez seja exatamente por isso que seja boa.
O poder público costuma investir em grandes eventos esportivos. Monta palco, fecha avenida, distribui camiseta tamanho único (que nunca é o tamanho de ninguém) e produz fotos bonitas.
Na segunda-feira, porém, o palco é desmontado, mas o desejo do jovem permanece. E alguém precisa estar lá para treiná-lo.
Minha proposta é criar o Bolsa Treinador do Distrito Federal, destinado a profissionais de Educação Física que desenvolvam projetos esportivos regulares.
O programa terá critérios objetivos, metas, fiscalização e prestação de contas. O treinador precisará comprovar sua qualificação, apresentar um plano de trabalho, manter turmas
regulares e demonstrar os resultados do projeto.
Mas resultado não será apenas pódio.
Uma criança que deixou de passar a tarde sem atividade e começou a treinar judô é resultado. Uma adolescente que encontrou no esporte um caminho distante das drogas e
um grupo ao qual pertencer é resultado. Uma pessoa com deficiência que passou a ter acesso a treinamento adequado também é.
O Bolsa Treinador poderá ter categorias diferentes. Uma destinada à iniciação esportiva e ao atendimento comunitário. Outra voltada a treinadores que acompanham atletas de alto
rendimento.
Existem excelentes profissionais espalhados pelo Distrito Federal. Gente que conhece os alunos pelo nome, entende a realidade das famílias e sabe quais quadras estão
abandonadas. E o Estado precisa reconhecer essas pessoas, que já trabalham pelo bem comum.
Uma quadra vazia custa, um ginásio fechado também. O CAVE, há muito tempo pedindo socorro é um exemplo disso. Uma piscina sem técnico de natação também custa.
E custam ainda mais as consequências de uma juventude sem oportunidade, sem convivência e sem boas referências. Não existe política esportiva duradoura sem gente preparada para ensinar.
Podemos construir quadras. Devemos recuperar as que estão abandonadas. Precisamos ampliar o acesso aos equipamentos esportivos.
Mas quadra nenhuma chama uma criança pelo nome. Bola nenhuma percebe quando um aluno está prestes a desistir.
Quem faz isso é o treinador.
Durante muito tempo, nós nos acostumamos a aplaudi-lo depois da medalha.
Já passou da hora de apoiá-lo antes dela.
