Autor: pedropgno@gmail.com

  • Quem apoia o treinador?

    Quem apoia o treinador?

    Toda quadra tem uma pessoa que quase ninguém percebe.

    Ele chega antes dos atletas. Carrega bolas, cones, coletes e uma rede que já deveria ter sido aposentada com menções honrosas. Depois confere o chão, improvisa uma marcação,
    manda mensagem para quem faltou e espera mais alguns minutos pelo aluno cujo ônibus atrasou.


    Quando o treino termina, ele fica mais um pouco. Guarda o material, conversa com os pais,
    organiza a competição do fim de semana e tenta descobrir de onde sairá o dinheiro para a inscrição, o uniforme ou o transporte.


    Nós o chamamos de treinador, mas, em muitos lugares, seria mais correto chamá-lo de teimoso.


    É preciso certa teimosia para continuar formando atletas sem estrutura, sem segurança, sem dinheiro, e sem reconhecimento. O treinador brasileiro se acostumou a fazer muito com pouco. Às vezes, com quase nada.


    Quando um atleta vence, todos se lembram do pódio. Poucos se lembram de quem abriu o ginásio numa terça-feira chuvosa, quando ainda não havia torcida ou medalhas.


    Eu conheço, por experiência própria, a importância de uma política pública de incentivo ao esporte. Aos 15 anos, quando velejava no Lago Paranoá, fui beneficiário do Bolsa Atleta. O
    valor recebido não me transformou em campeão olímpico, mas ajudou a manter vivo um projeto que exigia treino, disciplina, equipamentos, deslocamento.


    Para um jovem, esse apoio representa que alguém acredita que vale a pena continuar.


    O problema é que nenhum atleta continua sozinho.


    Por trás de cada menino que aprende a nadar, de cada menina que entra numa pista de atletismo, existe alguém que ensina, corrige, cobra, incentiva e puxa a orelha.


    Foi pensando nisso que conheci uma iniciativa de Osasco, o Bolsa Técnico. É um programa que oferece apoio financeiro a profissionais que dedicam sua rotina à formação e ao
    desenvolvimento de atletas.


    A ideia é simples. E talvez seja exatamente por isso que seja boa.


    O poder público costuma investir em grandes eventos esportivos. Monta palco, fecha avenida, distribui camiseta tamanho único (que nunca é o tamanho de ninguém) e produz fotos bonitas.


    Na segunda-feira, porém, o palco é desmontado, mas o desejo do jovem permanece. E alguém precisa estar lá para treiná-lo.


    Minha proposta é criar o Bolsa Treinador do Distrito Federal, destinado a profissionais de Educação Física que desenvolvam projetos esportivos regulares.


    O programa terá critérios objetivos, metas, fiscalização e prestação de contas. O treinador precisará comprovar sua qualificação, apresentar um plano de trabalho, manter turmas
    regulares e demonstrar os resultados do projeto.


    Mas resultado não será apenas pódio.


    Uma criança que deixou de passar a tarde sem atividade e começou a treinar judô é resultado. Uma adolescente que encontrou no esporte um caminho distante das drogas e
    um grupo ao qual pertencer é resultado. Uma pessoa com deficiência que passou a ter acesso a treinamento adequado também é.


    O Bolsa Treinador poderá ter categorias diferentes. Uma destinada à iniciação esportiva e ao atendimento comunitário. Outra voltada a treinadores que acompanham atletas de alto
    rendimento.


    Existem excelentes profissionais espalhados pelo Distrito Federal. Gente que conhece os alunos pelo nome, entende a realidade das famílias e sabe quais quadras estão
    abandonadas. E o Estado precisa reconhecer essas pessoas, que já trabalham pelo bem comum.


    Uma quadra vazia custa, um ginásio fechado também. O CAVE, há muito tempo pedindo socorro é um exemplo disso. Uma piscina sem técnico de natação também custa.


    E custam ainda mais as consequências de uma juventude sem oportunidade, sem convivência e sem boas referências. Não existe política esportiva duradoura sem gente preparada para ensinar.


    Podemos construir quadras. Devemos recuperar as que estão abandonadas. Precisamos ampliar o acesso aos equipamentos esportivos.


    Mas quadra nenhuma chama uma criança pelo nome. Bola nenhuma percebe quando um aluno está prestes a desistir.


    Quem faz isso é o treinador.


    Durante muito tempo, nós nos acostumamos a aplaudi-lo depois da medalha.


    Já passou da hora de apoiá-lo antes dela.

  • Por que escolhi o Novo?

    Por que escolhi o Novo?

    Há decisões que vão sendo amadurecidas, treinadas dentro de nós, como quem bate embaixadinha sozinho antes de ir pra pelada. Um toque aqui, uma leitura ali, uma conversa, uma eleição, uma decepção, outra esperança. Quando se vê, aquilo que parecia apenas simpatia virou convicção.

    Comigo, o Novo começou assim. Em 2018, quando João Amoêdo foi candidato à Presidência, fiquei curioso com o candidato de maior patrimônio. Mas havia ali algo ainda mais raro na política brasileira: uma verdadeira tentativa de mudar o jogo. O discurso contra privilégios, a defesa de quem não veio das velhas máquinas partidárias, a ideia de renovar a política de verdade (não apenas trocar a camisa do mesmo time), tudo isso me convenceu.

    Depois li Sem Atalho, e gostei muito. Em 2022, discordei frontalmente do apoio do Amoêdo a Lula no segundo turno. Mas não seria honesto jogar fora tudo o que aprendi com a fundação do Novo por uma divergência posterior. Na vida pública, como no futebol, é preciso distinguir o jogador, o lance e o clube.

    Há, no Novo, uma intuição que me parece correta: o Brasil precisa parar de tratar o Estado como benefício de alguns e conta de todos. Combater privilégios, abrir espaço a quem nunca viveu da política e lembrar que dinheiro público não nasce em Brasília: sai do bolso de alguém que acordou cedo.

    Esse ponto me toca.

    No fim de 2025, eu vinha estudando a Doutrina Social da Igreja Católica, e encontrei o que me ajudou a decidir. A Igreja não nos chama a escolher entre um Estado-pai que tudo absorve e um mercado sem alma que tudo devora. Ela fala de dignidade humana, família, subsidiariedade, solidariedade, bem comum.

    Foi aí que compreendi melhor a minha posição: a política, bem vivida, é uma forma de caridade pública, “uma expressão qualificada e exigente do compromisso cristão ao serviço dos outros” (CDSI, 565).

    Romeu Zema, hoje, representa uma liderança importante. Não porque eu acredite em salvador da pátria. Aliás, desconfio muito de quem é tratado assim. Mas Zema tem demonstrado muita disposição para defender sua posição independente. O gesto de não usar o Palácio das Mangabeiras, por exemplo, fala mais alto do que qualquer discurso inflamado.

    A política brasileira, por muitos anos, se acostumou a vender um espetáculo e entregar um 0x0. Deixou o cidadão na fila, o empreendedor sufocado, a família insegura e o pobre preso a promessas que nunca viram emancipação.

    E, ainda assim, continuamos discutindo política como se tudo fosse apenas Fla-Flu: esquerda contra direita, nós contra eles, santos contra demônios.

    Eu não entrei na política para isso.

    Entrei porque percebi que a indignação de sofá já não bastava. Que reclamar do juiz pela televisão é fácil; difícil é calçar a chuteira. Que a vida pública, apesar de suas misérias, ainda pode (na verdade, precisa!) ser um lugar de serviço. E que, se homens comuns não entram em campo, o jogo fica entregue aos profissionais do atraso.

    Escolhi o Novo porque encontrei o espaço mais coerente para defender aquilo que acredito. Tenho consciência que não escolhi um partido perfeito. Nenhum é. Mas escolhi um time no qual acredito que vale a pena jogar.

    Às vésperas de uma Copa do Mundo, há quem prefira comentar do sofá. Há quem espere o craque providencial. Há quem só entre quando o placar já está definido.

    A minha pretensão não é astronômica: não sou um artilheiro consagrado, nem dono da bola.

    Sou apenas alguém que ouviu um chamado, fez o sinal da cruz na beira do gramado, e decidiu entrar em campo. Eis-me aqui.